Atualizado em 4 de novembro de 2026

Ablação de fibrilação atrial: o que mudou e quando ela é indicada

A fibrilação atrial (FA) é a arritmia sustentada mais comum. Na FA, os átrios, que são as câmaras superiores do coração, passam a receber impulsos elétricos desorganizados, e o coração bate de forma irregular e muitas vezes rápida. Isso pode causar palpitação, cansaço e falta de ar. A FA também aumenta o risco de AVC e de insuficiência cardíaca.

Eletrocardiograma de fibrilação atrial com batimentos em intervalos irregulares
Eletrocardiograma de uma pessoa com fibrilação atrial. Os batimentos (os picos) chegam em intervalos irregulares, e não há a onda organizada que antecede cada batimento no ritmo normal. Imagem: CardioNetworks/ECGpedia, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons (recortada). Ver original.

A ablação por cateter trata a origem mais frequente desses impulsos: as veias pulmonares, que chegam ao átrio esquerdo. Por cateteres introduzidos pela veia da virilha, o eletrofisiologista faz o isolamento elétrico das veias pulmonares, criando uma barreira que impede esses impulsos de chegarem ao átrio.

Uma coisa a ablação não faz por si só: ela não dispensa o anticoagulante. A decisão sobre o anticoagulante segue o risco de AVC de cada pessoa, e não o sucesso do procedimento [1].

O que mudou nos últimos anos?

Durante muito tempo, a ablação foi tratada como um último recurso, reservado a quem já tinha tentado um ou mais remédios antiarrítmicos sem sucesso. Os estudos dos últimos anos mudaram essa ordem.

Ablação como primeiro tratamento. Em 2021, três estudos randomizados compararam a ablação feita logo no início com os remédios antiarrítmicos, em pessoas com FA paroxística (a que vem em episódios e para sozinha):

  • No STOP AF First, 74,6% dos pacientes da ablação estavam livres de recorrência em 12 meses, contra 45,0% no grupo dos remédios [2].
  • No EARLY-AF, todos os pacientes usaram um monitor implantável, que registra cada episódio. Em 1 ano, a recorrência sintomática foi de 11,0% com ablação e de 26,2% com remédios [3].
  • No acompanhamento de 3 anos do EARLY-AF, a FA evoluiu para a forma persistente em 1,9% dos pacientes da ablação e em 7,4% dos que usaram remédios [4]. Isso sugere que tratar cedo pode reduzir a progressão da doença.

Controle do ritmo precoce. O EAST-AFNET 4 acompanhou 2.789 pacientes com FA diagnosticada havia no máximo 1 ano. Buscar o ritmo normal cedo, com remédios ou ablação, reduziu o conjunto de morte cardiovascular, AVC e internações por insuficiência cardíaca ou síndrome coronariana (3,9 contra 5,0 eventos por 100 pacientes por ano) [5].

Insuficiência cardíaca. Antes, um coração mais fraco era motivo de cautela. Hoje, para pacientes selecionados, é uma das situações em que a ablação mostrou mais benefício:

  • No CASTLE-AF, em pessoas com FA e coração com força de bombeamento reduzida, a ablação reduziu o desfecho de morte ou internação por piora da insuficiência cardíaca (28,5% contra 44,6%) [6].
  • No CASTLE-HTx, em insuficiência cardíaca avançada, esse desfecho ocorreu em 8% dos pacientes da ablação e em 30% dos tratados só com remédios. O desfecho incluía morte, implante de dispositivo de assistência ventricular ou transplante cardíaco [7].

Uma leitura honesta do CABANA. O maior estudo da área, com 2.204 pacientes, não mostrou diferença na análise principal, que combinava morte, AVC incapacitante, sangramento grave e parada cardíaca (8,0% com ablação contra 9,2% com remédios) [8]. O mesmo estudo mostrou menos recorrência da arritmia e melhora maior na qualidade de vida com a ablação [9]. Ou seja: para a maioria das pessoas, a ablação melhora sintomas e qualidade de vida. A ablação não mostrou reduzir mortalidade em todos os pacientes. Esse benefício foi visto em grupos específicos, como na insuficiência cardíaca.

Com esse conjunto de evidências, as diretrizes americana (2023) e europeia (2024) passaram a considerar a ablação uma opção de primeira linha para pacientes selecionados com FA paroxística sintomática. A decisão é compartilhada entre médico e paciente [1, 10].

O que mudou na tecnologia?

O procedimento também mudou:

  • Mapeamento eletroanatômico 3D. O computador reconstrói o átrio em três dimensões e mostra a posição do cateter em tempo real.
  • Ecocardiografia intracardíaca (ICE). É um ultrassom de dentro do coração. Mostra as estruturas e o contato do cateter durante todo o procedimento, o que permite fazer a ablação com pouco ou nenhum raio X. Quando indicado, isso vale inclusive para gestantes.
  • Ablação por campo pulsado (PFA). Em vez de calor ou frio, usa pulsos elétricos muito curtos, que atingem o tecido do coração de forma mais seletiva e poupam estruturas vizinhas, como o esôfago.
Mapa 3D do átrio esquerdo com pontos de ablação ao redor das veias pulmonares
Exemplo de mapa eletroanatômico 3D do átrio esquerdo. Cada ponto colorido marca uma aplicação de energia, formando um anel ao redor das veias pulmonares. O cateter aparece na tela em tempo real. Imagem: Liu GA, et al. JACC Case Rep. 2025. doi:10.1016/j.jaccas.2025.105298, CC BY 4.0. Ver original.

Cada um desses temas tem um texto próprio. O que importa aqui é que hoje existem mais formas de adaptar o procedimento a cada paciente.

Para quem a ablação costuma ser indicada?

Em geral, a ablação é considerada para:

  • quem tem sintomas da FA (palpitação, cansaço, falta de ar, menor tolerância ao esforço) e quer controlar o ritmo;
  • quem tem FA paroxística, inclusive como primeira opção de tratamento, em decisão compartilhada;
  • quem não tolera ou não respondeu aos remédios antiarrítmicos;
  • quem tem insuficiência cardíaca em que a FA pode estar contribuindo para a piora do coração.

Quando é melhor evitar ou adiar a ablação?

A ablação não é a resposta para toda FA. Algumas situações pedem outro caminho ou outro momento:

  • Causa tratável por trás da FA, como excesso de hormônio da tireoide ou consumo alto de álcool. Tratar a causa vem antes.
  • Fatores de risco sem controle. Peso, pressão alta, apneia do sono e álcool influenciam diretamente a FA. No estudo LEGACY, quem perdeu 10% ou mais do peso e manteve essa perda teve uma chance 6 vezes maior de ficar livre da arritmia [11]. Em pessoas que bebiam regularmente, parar de beber reduziu a recorrência da FA de 73% para 53% em 6 meses [12]. Esses cuidados melhoram o resultado com ou sem ablação.
  • Coágulo dentro do coração (trombo no átrio). O procedimento é adiado até o trombo ser tratado.
  • Impossibilidade de usar anticoagulante no período do procedimento.
  • FA persistente de longa data com átrio muito dilatado, em que a chance de manter o ritmo normal é menor.
  • Ausência de sintomas e de benefício esperado. Quando a FA não causa sintomas nem piora o coração, controlar a frequência e prevenir o AVC pode ser suficiente.
  • Fragilidade ou doenças graves associadas, em que o risco do procedimento supera o benefício.

Que resultado esperar, sem ilusão?

  • Depende do tipo de FA. Os resultados são mais favoráveis na FA paroxística tratada cedo. Na FA persistente, e principalmente na de longa data, a chance de recorrência é maior.
  • Depende de como se mede. No EARLY-AF, com monitor contínuo que registra até episódios de 30 segundos, 42,9% dos pacientes da ablação tiveram algum episódio no primeiro ano. Só 11,0% tiveram recorrência com sintomas, e o tempo mediano em FA foi de 0% [3]. Ter um episódio isolado não é o mesmo que o tratamento ter falhado.
  • Os primeiros 3 meses são de cicatrização. Episódios nesse período são comuns e nem sempre significam que a ablação não funcionou. Os estudos só começam a contar a recorrência depois dele [2].
  • Às vezes é preciso um segundo procedimento, para completar ou refazer o isolamento.
  • Complicações graves são pouco frequentes, mas existem. No STOP AF First, eventos graves de segurança ocorreram em 1,9% dos pacientes em 12 meses [2]. No EARLY-AF, eventos adversos graves ocorreram em 3,2% dos pacientes da ablação e em 4,0% dos que usaram remédios [3]. Os riscos de cada caso são discutidos na consulta.

Como é o procedimento e a recuperação?

A ablação é feita no laboratório de eletrofisiologia do hospital, com sedação ou anestesia. A escolha depende do paciente e do tipo de procedimento, e é feita para cada caso. Os cateteres entram por uma veia da virilha, sem corte no peito. Em geral, o procedimento leva algumas horas, e a alta pode ser no mesmo dia ou depois de uma noite no hospital. A volta às atividades leves costuma ser em poucos dias, e o esforço físico intenso é evitado por um período curto. As orientações exatas, inclusive sobre remédios e anticoagulante, são individuais.

Perguntas frequentes

A ablação de fibrilação atrial dói?
O procedimento é feito com sedação ou anestesia, conforme o que for melhor para cada caso. Depois, pode haver desconforto no local da punção na virilha e, às vezes, no peito, por alguns dias.
Depois da ablação, posso parar o anticoagulante?
Não automaticamente. A decisão segue o risco de AVC de cada pessoa, e não apenas o resultado da ablação [1]. Ela é revista com o médico.
Vou poder parar os remédios para arritmia?
Em muitos casos, os antiarrítmicos são reduzidos ou suspensos depois do período de cicatrização. Isso depende da evolução de cada paciente.
A ablação cura a fibrilação atrial?
Ela pode eliminar ou reduzir muito os episódios, mas a FA é uma doença que pode progredir com a idade e com os fatores de risco. Por isso, o acompanhamento e o controle de peso, pressão, sono e álcool continuam importantes.

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Leia também: Ecocardiografia intracardíaca (ICE) · Ablação por campo pulsado

Referências

  1. Van Gelder IC, Rienstra M, Bunting KV, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation. Eur Heart J. 2024. doi:10.1093/eurheartj/ehae176
  2. Wazni OM, Dandamudi G, Sood N, et al. Cryoballoon ablation as initial therapy for atrial fibrillation (STOP AF First). N Engl J Med. 2021. doi:10.1056/NEJMoa2029554
  3. Andrade JG, Wells GA, Deyell MW, et al. Cryoablation or drug therapy for initial treatment of atrial fibrillation (EARLY-AF). N Engl J Med. 2021. doi:10.1056/NEJMoa2029980
  4. Andrade JG, Deyell MW, Macle L, et al. Progression of atrial fibrillation after cryoablation or drug therapy. N Engl J Med. 2023. doi:10.1056/NEJMoa2212540
  5. Kirchhof P, Camm AJ, Goette A, et al. Early rhythm-control therapy in patients with atrial fibrillation (EAST-AFNET 4). N Engl J Med. 2020. doi:10.1056/NEJMoa2019422
  6. Marrouche NF, Brachmann J, Andresen D, et al. Catheter ablation for atrial fibrillation with heart failure (CASTLE-AF). N Engl J Med. 2018. doi:10.1056/NEJMoa1707855
  7. Sohns C, Fox H, Marrouche NF, et al. Catheter ablation in end-stage heart failure with atrial fibrillation (CASTLE-HTx). N Engl J Med. 2023. doi:10.1056/NEJMoa2306037
  8. Packer DL, Mark DB, Robb RA, et al. Effect of catheter ablation vs antiarrhythmic drug therapy on mortality, stroke, bleeding, and cardiac arrest (CABANA). JAMA. 2019. doi:10.1001/jama.2019.0693
  9. Mark DB, Anstrom KJ, Sheng S, et al. Effect of catheter ablation vs medical therapy on quality of life among patients with atrial fibrillation (CABANA). JAMA. 2019. doi:10.1001/jama.2019.0692
  10. Joglar JA, Chung MK, Armbruster AL, et al. 2023 ACC/AHA/ACCP/HRS Guideline for the diagnosis and management of atrial fibrillation. Circulation. 2024. doi:10.1161/CIR.0000000000001193
  11. Pathak RK, Middeldorp ME, Meredith M, et al. Long-term effect of goal-directed weight management in an atrial fibrillation cohort (LEGACY). J Am Coll Cardiol. 2015. doi:10.1016/j.jacc.2015.03.002
  12. Voskoboinik A, Kalman JM, De Silva A, et al. Alcohol abstinence in drinkers with atrial fibrillation. N Engl J Med. 2020. doi:10.1056/NEJMoa1817591
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